Quem vê pensa que finalmente consegui criar um título criativo. Mas não. É apenas o verso de uma música ucraniana que peguei emprestado. Estou ouvindo ela em modo repetição, na esperança de introjetar alguma inspiração no meu cérebro preguiçoso.
Afinal, o que serve como gatilho para iniciar um post desses? Preciso ter uma vida movimentada ou muita bagagem cultural? Ou apenas estar de olho nos acontecimentos do mundo, como muitos jornalistas que frequentam o WordPress? Antes eu valorizava o trabalho destes, mas agora vejo como algo vão. Porque a humanidade sempre cometeu os mesmos erros repetidamente ao longo da história. Se compararmos o noticiário de hoje com o de décadas atrás, não veremos muita diferença. A única variação significativa é que a humanidade parece ter sido idiotizada pelas redes sociais. Mas cada época com suas mazelas, né.
Minha vida é monótona e dificilmente entrarei para algum registro histórico. Tem suas mudanças, mas não cabe mencionar aqui. No livro de erros da humanidade, minha existência é apenas uma vírgula. Queria ser mais, pra compensar o fato de não ser humano. Queria ser uma daquelas vírgulas decisivas que alteram todo o significado de uma frase. Mas uma vírgula rebelde, que se recusa a estar onde é chamada, talvez por um erro de impressão ou digitação.
E onde estou sendo chamado? No momento, só ouço aquela música supracitada. E ela me chama direto pro mês de fevereiro. Para muitos, é quando um ano se inicia de fato. Pra mim, foi quando se intensificou toda essa dilaceração do meu afeto.
A música fede ao mês de fevereiro. Está totalmente impregnada com a substância daquela época. Mesmo que esse seja um significado só meu. Se eu me deixo levar… logo vou recobrando os cosméticos que usei, meu corte de cabelo novo, minha tentativa de emagrecer. Minha esperança de ser aceito. Ainda na inocência de achar que havia algo bom para extrair do mundo. Basta se esforçar, e você encontrará um cara legal – eu repetia para mim ao espalhar ácidos pelo rosto. Mas caras legais não são tão bitolados com a aparência dos outros. E então quem eu queria agradar? O tipo de gente fútil que me rejeitou por eu ter umas cicatrizes e estar alguns quilos acima do peso?
Seria fácil se eles fossem apenas uma minoria barulhenta no meio gay. Mas são regra, não exceção. Nunca vou entender por que essas pestes criaram uma cultura tão nefasta para os seus iguais… Suponho que fosse diferente antes do Grindr. Mas difícil dizer que era melhor.
Hoje um filho da puta com foto genérica de policial e “Dr.” no nome me ligou duas vezes. Número de SP, mesmo DDD da ratazana gay que furtou migalhas do meu dinheiro prometendo um medicamento para insônia. Espero que a ratazana esteja satisfeita, pois de mim nunca mais vai arrancar nada. Estou ciente de como esses golpistas de merda operam, e era questão de tempo até partirem pra intimidação. Estou criando um ranço de golpistas que nunca tive antes. Justamente porque esses filhos da puta se aproveitam de pessoas em momentos de desespero, pessoas que precisam de ajuda e talvez sejam tão fodidas quanto eles. Não tem essa de roubar dos ricos e dar pros pobres aqui. Esses parasitas se sustentam tornando a vida de seus “iguais” mais miserável ainda.
Só acho uma pena que minha insônia não tenha se dissipado até agora. Estou escrevendo isso às 05:30 da manhã, aliás. Vou dormir antes de continuar.
Muita coisa mudou pra mim em fevereiro. Foi quando consumi vodka pela primeira vez. Aproveitei uma viagem que minha mãe fez ao nordeste. Ela ficou cerca de uma semana lá. Também tentei contratar os serviços de um GP e fiz tudo conforme achei necessário. Adquiri o meu primeiro dildo. Agi como se precisasse me adaptar ao fato de o GP ser ativo, em vez de procurar um passivo, ou, melhor ainda, um que aceitasse gouinage. Também comprei uma ducha retal através do ifood às duas e pouco da manhã. Tinha bebido o suficiente para criar coragem de fazer isso. O resultado foi que, como minha alimentação era uma merda, não consegui fazer dar certo mesmo com todo esse preparo. O GP até demonstrou interesse nos outros dias, quando eu não estava pronto. Sim, pra mim foi um processo de dias até deixar o meu cu livre pra ele. Mas quando finalmente chegou o dia marcado, ele não deu mais satisfação. Acho que demorei demais, que me antecipei demais em contatá-lo antes de estar pronto. Ele era uma delícia, e eu estava de olho nele havia alguns anos. Não era exatamente novo ou incrivelmente bonito. Mas tinha um perfil que me agradava muito. Acabei descobrindo que ele mentiu pra mim sobre a idade, que era 43, e não 27 anos, como ele havia informado. Pra mim estava bem óbvio pelas fotos que ele passava dos 35. Acho que só um fumante assíduo chegaria com aquela aparência aos 27. Mas não me importo com idade. O fato de ele ter mentido sobre ela lançou dúvidas sobre a legitimidade dos papéis que me mostrou sobre PrEP e vacinação. Tentei obter mais informações, e ele ficou incomodado de cara. Acho que quando um FDP chega a essa idade com esse estilo de vida, não dá pra esperar boa coisa. Pra ele, basta ser branco, magro, ter pau grande e jeito de homem. Com isso consegue tudo o que quer. No fim, ainda me acusou de ter cometido invasão de dados pessoais e de estar por trás de um golpe que a irmã dele recebeu. Eu havia bloqueado ele no Whats depois do bolo que levei, mas ele me mandou SMS. Tive que fazer todo um dramalhão sobre ser um coitado que não consegue sexo. Ele me disse que sou “muito estranho” e me deixou em paz.
Quanto ao que vem depois disso, eu cansei de relatar aqui, mas nunca em detalhes. Provavelmente se passaram uns dias onde eu achei que poderia deixar essa carência de lado. E que pena que não tive esse autocontrole. Depois veio o Grindr. No Grindr eu demonstrava disposição imediata pra transar. Falei com um cara usando a função right now. A transa estava praticamente acertada, mas aí eu inventei de espontaneamente mandar um foto minha. O cara inventou uma desculpa na hora. Pelo menos teve educação. A maioria já teria me bloqueado. Vi que não poderia escolher muito. Se o cara fosse magro e jovem, ele não ia me querer. Daí fui atrás de um coroa, e teria sido até gostoso se ele não fosse um fumante fedido. Então tanto a minha aparência como a minha performance sexual ficaram em cheque.
Eu criei perfis autodepreciativos. Talvez o mais célebre com o nome “Aberração” e uma substância negra saindo dos meus olhos em uma foto com filtro de IA. Conheci um urso e um passivo submisso através dessa excentricidade.

O urso me abordou várias vezes. Eu gostava dele. Mas ele preferia twinks magrinhos, apesar de usar o suposto fato de eu ser ativo como desculpa pra não me dar uma chance. No final, ele deixou claro que só queria conversar. Nem de um beijo dele eu fui digno. E olha que, sinceramente, ele não era bonito. Demonstrei uma extrema insegurança numa conversa que tivemos no WhatsApp de madrugada. Daí acabei perdendo o número dele, e ele não quis mais falar comigo.
Quanto ao passivo submisso, bem… No início eu pedi dicas sobre a minha aparência e perguntei se poderíamos conversar. Ele me passou o WhatsApp dele com alguma relutância. Me fez perguntas simples e eu acabei dando respostas um pouco mais longas e falando de mim mais do que deveria. Quando ele respondeu com frieza, eu o bloqueei. Mas foi só desbloquear pra ele dar as caras de novo. Às vezes acontece isso, de eu bloquear um gay e ele voltar quando eu tiro o block algumas semanas ou até meses depois. Mas só os mais feinhos ou gordinhos fazem isso. Tirando o Kevin, que conheci no Tinder – ele é praticamente um sósia de um colega de infância que eu tive, com a diferença de ser um femboy. Ele continuou atrás de mim por um tempo, mas a conversa azedou quando ele revelou que tinha a intenção de se tornar mulher.
Já o (outro) passivo submisso teve várias conversas comigo até março. Acabou que ele era casado e queria pular a cerca comigo. Não gostei de saber que o marido dele era autista nível 2 de suporte, mas conseguia ser mais útil pra sociedade do que eu. Tivemos várias brigas, e o fato de ele ser submisso permitiu que eu despejasse minhas frustrações e amarguras naquela conversa com certa frequência. Diferente do meu ex-melhor-amigo, ele não me bloqueou quando eu disse que desejava morte a todos os gays do mundo. Mas por que ele aturava tudo isso? Simples. Era gordinho, afeminado e já não estava tão novo assim. A “pista” dele claramente estava “salgada”. Ele não tinha inúmeras opções, como o gay médio de Grindr tem. Creio que não transava havia quase um ano, sabe? E isso muda muito como encaramos as oportunidades que aparecem para nós. Às vezes o cara que você acha só “passável” se torna uma oportunidade única na vida. Mas eu não era isso. A menos que ele gostasse de ouvir meus desabafos, as chances dele comigo eram zero. Demorei pra deixar isso claro. Quando deixei, ele não teve nenhuma dificuldade em me bloquear.
Não demorei pra chegar ao fundo do poço. E tinha o post-punk ucraniano como único refúgio. Ouvia sem parar a música Танок, que eu achava tão carregada e hipnotizante. Essa eu cheguei a compartilhar com o passivo submisso, afinal eu estava acostumado a mostrar pra ele o que havia de mais rastejante em mim. Pra ele as minhas reações eram exageradas. Não era o único que se incomodava com o excesso de drama em minha comunicação. Também tentei restaurar meu contato com aquele que um dia foi meu melhor amigo. Eu não significava mais nada pra ele, tinha sido apenas uma fase em sua vida. Nem entendo por que ele não me bloqueou logo na primeira mensagem minha que recebeu. Talvez mantivesse um resquício de esperança de que eu me tornasse uma pessoa decente. Afinal, foi isso que ele se tornou. Alguém perfeitamente adequado socialmente. Não aceitava mais encarar o meu subsolo emocional e todos os demônios que o habitam. Mas não posso reclamar disso. Ele ainda foi mais paciente do que a maioria das pessoas seriam.

Eu o odiei por um tempo. Acusei ele de ser um péssimo amigo. Mas ele não me deve nada. Eu tive a chance de ser importante pra ele, mas joguei fora. Agora sou apenas mais um dos rancores que ele guarda. E também… Não dava para eu esperar que tivéssemos uma relação saudável. Nem era isso o que eu queria. Queria alguém para chafurdar no subsolo junto comigo.
Quando ainda estava tentando demonstrar ser alguém interessante pra ele, e não um infantiloide desequilibrado, compartilhei o meu gosto por músicas ucranianas. O lo-fi que enviei na nossa conversa se tornou extremamente nostálgico com o tempo. Basta ouvi-lo a qualquer momento que sou transportado direto para aquele mês fatídico. O mês em que adotei esta persona intragável. Está na hora de jogá-la fora.