Ócio

Já ficou o dia inteiro sem fazer nada? Melhor ainda, vários dias seguidos? Coçando o saco, pensando na morte da bezerra… Se sim, qual foi a sensação? Faria mais vezes?

Assim foi o meu fim de semana. Minha mãe foi se encontrar com deus e o mundo na chácara. Me convidou, mas usei minha tia como desculpa para não ir. No fim, também não fui ao ateliê (onde minha tia trabalha e mora). Eu tinha uma única tarefa, que era achar o contrato social da empresa dela. Mas passei o fim de semana inteiro enrolando e no fim não procurei. Não que ela tenha se importado. Às vezes acho que nada que eu possa fazer vai desagradar ela. Mas vamos confirmar isso em breve.

Tinha iniciado a leitura de um mangá, mas deixei pra depois. O kefir ficou mofando (ou melhor, fermentando) no guarda-roupa, quase que completamente esquecido. Duolingo nem se fala, eu não quis saber de aumentar minha ofensiva ou me destacar no torneio diamante. Tudo o que eu fiz naqueles dias se resumiu a satisfazer meus instintos mais básicos: comer, beber, cagar, mijar, gozar e dormir (esse nem tanto). Daí você me pergunta com o que eu me distraí durante o dia. Nisso entra um dos conceitos que eu mais empreguei no meu planejamento de hábitos (nem preciso dizer que fracassou, né?). Estou falando dos hábitos não-conteudistas. São hábitos com o propósito de aliviar o cérebro da sobrecarga de informações. No cenário ideal, esses hábitos não te expõem a nenhuma informação que você desconhecia antes. Você basicamente “desliga” o cérebro e decide: “Hoje eu não quero aprender nada”.

Essa preocupação surgiu porque houve uma época em que o meu planejamento de hábitos era integralmente dedicado à aquisição de informações. Havia uma alternância na natureza das informações adquiridas claro. Seria como se eu passasse uma hora estudando português pra depois emendar uma hora me concentrando em problemas de matemática. Isso deixava o meu dia exaustivo, porque o mesmo não previa um momento de lazer, e orbitava completamente em torno de socar informações no meu cérebro. Tentei amenizar isso com livros, séries e filmes, mas sou o tipo de pessoa que (tenta) presta muita atenção nas mídias que está consumindo. Tem gente que até consegue desligar o cérebro vendo TV, mas eu faço questão de acompanhar cada cena e cada diálogo sem deixar nada importante passar batido. Ou seja, mais trabalho mental.

Quando se fala em amenizar isso, logo somos intimidados pelo tédio. Afinal, estamos em 2026, então quem quer ficar 30 minutos sem socar trocentos vídeos do TikTok no campo de visão? Não que o TikTok exija uma grande capacidade mental, mas pra mim o funcionamento desse app é uma verdadeira tortura. Gosto de escolher os conteúdos que consumo, como faço no YouTube. No TikTok, você só vai deslizando e o algoritmo decide o que você vai ver. Ainda assim, não posso criticar os usuários assíduos dessa rede social, porque de alguma forma eles são mais úteis pra sociedade do que eu. Mas pra quem quer escapar desse loop infinito de informações inúteis, talvez valha a pena dar uma olhada em alguns jogos mobile.

Estou falando de jogos do gênero bullet heaven. Você controla um personagem, que começa com uma arma. Cada arma desfere um golpe distinto, que varia quanto à área atingida, o dano, a frequência do ataque e afins. Vários inimigos começam a se aproximar, cada vez mais, e vão ficando mais fortes. Você precisa se desviar deles para não morrer, mas eventualmente eles vão começar a te cercar. Nesse caso, a única escapatória é matá-los para abrir caminho. Conforme os mata, você coleta experiência, que te permite passar de nível e desbloquear novos golpes ou aprimorar os existentes. Basicamente isso. Esses jogos por padrão oferecem um modo infinito, onde só há a morte como conclusão. O jogo continua até você morrer. Essa parte é frustrante, porque sempre parecia que ao morrer todo o meu progresso era jogado no lixo. Daí encontrei um jogo que, além do modo infinito, permite conclusão de fases. Pra mim era o meio-termo perfeito. Sem falar no visual de encher os olhos.

Gosto deste estilo.

Em determinado ponto da minha evolução, eu me sentia como um deus, eliminando os tentáculos que it enviava até mim. Gostaria que fosse fácil assim na vida real.

Foram horas e horas nesse jogo. Desbloqueando novas fases, novos personagens, novas melhorias. E de vez em quando pedindo ifood para me empaturrar. Ironicamente, o mangá que comecei a ler, Tokyo Ghoul :re, tem uma personagem exatamente assim. Só joga, come e dorme. Mas mantém seu sustento através de um contrato com a organização que modificou o corpo dela (pra resumir a história). Eu adoraria ter isso, um acordo que garantisse o meu sustento sem eu precisar fazer praticamente nada.

Quando o fim de semana acabou, a verdade veio à tona. Pilhas de louça na pia, lixeira completamente entulhada por embalagens do ifood, segunda-feira às seis da manhã, eu quase caindo de sono, mas me obrigando a pelo menos tirar o lixo pra minha mãe não passar aqui e ver a farra que eu fiz. Eu comi de tudo. Sushi, frango frito, hambúrguer, batata, refri, salgadinho, cachorro-quente, e muitos drinks prontos. Minha mãe nem sabe que eu passo o fim de semana torrando dinheiro com comida. Normalmente eu me sinto culpado após fazer cada pedido, mas desta vez chutei o balde e me deixei levar completamente. Não sei qual era exatamente a minha intenção. Foi como se minha vida tivesse perdido o propósito após um encontro meu no Grindr finalmente dar certo. Como se eu pensasse que “Já fiz o que tinha que fazer. Cumpri meu propósito, venci na vida, agora é hora de chafurdar no hedonismo sem preocupações“.

Até achei que escrever sobre isso permitiria uma reflexão mais ampla, mas o texto até aqui ficou tão vazio quanto o meu fim de semana. Na verdade eu só estou fazendo este post como uma espécie de tira-gosto de toda aquela vadiagem. Como se eu estivesse me aquecendo antes de voltar à ativa. E bem, não é a primeira vez. Minha vida até agora foi regada a muitos dias de ócio. Talvez isto explique por que atualmente eu estou tão gordo e desempregado.

É claro que nem toda vida precisa ser útil… Basta que seja sustentável. Antes o pretexto dessas farras era aliviar a pressão que eu sentia por morar no mesmo imóvel que a minha madrasta. Daí aproveitava quando ela saía pra extravasar todos os impulsos que eu havia acumulado. Mas hoje eu não tenho um bom motivo para repetir a dose. Quer dizer, a presença da minha mãe aqui me tira certas liberdades, mas ela não é tóxica para mim como a mulher do meu pai.

Fico me perguntando… Se eu morasse sozinho em definitivo e tivesse plena liberdade (ou o mais próximo disso) em cada momento da minha vida… Será que esses dias de farra ainda seriam necessários? Será que é sempre uma questão de aliviar a tensão e me alienar dos meus problemas, ou parte do meu cérebro encara isso como um estilo de vida ideal? Bem, contanto que se exclua outras pessoas da equação… Posso até ficar obeso, mas não vou me arrepender de como levo a minha vida. Tirando outras pessoas da equação, resta quem para julgar o meu excesso de peso? Ou meus hábitos de sono irregulares, meu vício em jogos… A minha completa falta de serventia.

Tudo o que deu errado na minha vida foi ocasionado pelo excesso de outras pessoas. Cada preocupação, vergonha, arrependimento, decepção. O senso comum é que se incomodar com o que os outros pensam nos torna pessoas melhores e mais civilizadas. Mas eu não quero ser melhor. Eu quero chafurdar no meu covil sujo, escuro e fedido. Comer com as mãos, dispensar roupas, me tornar a versão mais selvagem de mim mesmo. O animal que habita dentro da minha casca. Autêntico, livre e satisfeito, longe do teatro cotidiano onde a humanidade finge ser diferente e superior aos outros animais. Longe de toda a infelicidade que o outro me traz.

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