Depois de tantas experiências sexuais frustradas, comecei a desconfiar que o problema era eu. Me perguntei se era o melhor momento para desinstalar o Grindr, afinal eu precisaria estar bem desconectado emocionalmente pra deixar aquele app de lado. Alguns caras surgiram depois do último encontro, mas todos me bloqueavam quando eu demorava pra responder. A lógica desse app é sair descartando o mais rápido possível qualquer um que não satisfez suas vontades imediatas. Outra prática bem recorrente é sair interagindo com outros usuários sem se dar o trabalho de visualizar seus perfis direito. Certa vez perguntei a um dos meus interlocutores da madrugada o que ele tinha visto (de interessante) no meu perfil pra decidir mandar um “oi”. E era exatamente isso. Saiu cumprimentando em massa os outros usuários até receber alguma resposta. E ainda me disse que tinha poucas expectativas de conseguir alguma transa naquela noite. Ele era mais novo que eu, magro, branco e loiro. Tinha um rosto meio judiado (talvez por acne ou outra condição cutânea), além de usar óculos, mas eu só consegui achá-lo fofo. Nossa conversa fluiu tranquilamente, a princípio sem nenhuma insegurança ou ruído de comunicação. Pela primeira vez em muito tempo, eu me vi diante de alguém que sabia falar a minha língua. No dia seguinte, se evidenciou o seu desinteresse, que suscitou em mim uma insegurança diretamente proporcional. Nem preciso contar o resto, pois acredito já ter mencionado uma situação parecida aqui.
Todo esse desespero em sair disparando mensagens a esmo, pra no fim passar a madrugada conversando comigo e depois me bloquear… E não aconteceu só uma vez. Isso me faz pensar que a comunidade gay realmente está meio doente. Claro, há aqueles que conseguem surfar lindamente em cima de toda essa desumanização do outro e ainda extrair uma experiência predominantemente satisfatória daquele açougue.
Uma comparação muito boa é com o catálogo da Netflix. Não é raro uma pessoa passar mais tempo explorando o catálogo do que assistindo a algo que realmente goste. Será que os usuários do Grindr passam mais tempo desfrutando de encontros ou se frustrando porque tal cara não respondeu, tal cara bloqueou eles, outro deu ghosting após o encontro, outro era mais feio do que nas fotos, e etc. Eu me pergunto frequentemente se sou o único gay incel do mundo, mas nunca parei pra considerar que talvez essa dor não seja exclusivamente minha.
Pra mim, é altamente questionável o caráter de uma pessoa que tem um encontro satisfatório mas descarta o parceiro feito uma camisinha usada pra procurar coisa mais interessante. Se eu encontrasse um cara que me atrai e me proporcionou uma boa transa, eu continuaria me relacionando com ele até cansar, contanto que o interesse fosse recíproco. Acho que a minha tendência à monogamia é incomum na comunidade gay.
Uma coisa engraçada é que eu passei tanto tempo pintando os conservadores como os maiores algozes da existência homossexual, só pra descobrir que os gays normalmente são vítimas uns dos outros. Muito se fala que o Brasil é o país com mais mortes de LGBTs do mundo. Sempre me pareceu um argumento furado, mas que a cartilha progressista disseminou a rodo ao longo de anos. Pois bem, aquilo que conservadores aleatórios comentavam sobre nós nas redes sociais estava certo. Um hétero em sã consciência não vai se dar o trabalho de sair por aí matando gays, por mais que despertemos a sua aversão. Se eu fosse hétero de verdade, teria um leve desprezo por gays, mas não a ponto de vê-los como uma ameaça – só o tipo de criatura irritante que eu quero manter longe de mim. Por mais que o monopólio da testosterona torne os héteros ariscos, irritadiços e agressivos, um gay comum simplesmente não tem coragem ou motivação para tirar um hétero do sério. Então normalmente eles só nos agridem. Um gay reclamando de agressão na delegacia talvez receba uma sova extra dos próprios policiais. Mas um gay morto é chave de cadeia. E ninguém quer desperdiçar anos de sua vida atrás das grades por ter tirado a vida de uma criatura inferior.
Existe um fenômeno estudado pela psicologia que revela uma tendência do ser-humano a machucar pessoas próximas com mais frequência do que estranhos. Seja por questão de oportunidade ou porque essas pessoas próximas (as que amamos) movimentam sentimentos mais intensos dentro de nós. E isso alimenta grande parte daquelas estatísticas de assassinato. Gays não são exceção a essa tendência. Quando se fala em serial killers famosos cujas vítimas eram predominantemente homens, surge uma representatividade gay indesejada. Claro, nem tudo é nossa culpa. Mas tirando governos que nos negam direito básicos e pais que expulsam filhos de casa, o único desafio remanescente para o indivíduo homossexual é encontrar acolhimento entre os seus iguais. Às vezes não é isso o que recebemos dos nossos pares. Mas talvez eu tenha encontrado… Um oásis no meio do deserto.
Em um post recente, reclamei de introduções desnecessárias. Mas tive que fazer essa, pois temi que meu blog virasse meramente uma coletânea de contos eróticos gays. Logo chegaremos ao cerne deste post.
Mudei meu nome no Grindr para NãoSeiTransar, assim já saberiam estar lidando com alguém inexperiente. Esperava que fosse um filtro mais eficaz do que “PauPequeno”, mas apareceram vários caras me mandando mensagem. Eu até tinha perdido as esperanças, estava usando o perfil apenas para divulgar o blog. Mas esse mundo sempre dá um jeito de ironizar as minhas decisões. Quando quero atrair, afasto. Quando quero afastar, atraio. Prova disso é um perfil secundário que criei para observar o movimento no app sem comprometer a minha imagem no processo. O nome era NÃO ABRA. “Só estou aqui para observar, não pretendo interagir”. Era um perfil vazio e não tinha foto, apenas minhas informações básicas. Mas foi o suficiente para receber mensagens até de caras que me rejeitaram na conta principal. Não pude deixar barato, então: “TOMARA QUE UM CAMINHÃO PASSE POR CIMA DE VOCÊ E ESMAGUE A SUA CABEÇA FEITO UMA MELANCIA”. Ele não me incomodou mais depois disso. Optei por mudar de estratégia e criei um perfil dedicado à coprofilia pra manter a conta parada.


Não tenho nenhuma predileção real por excrementos. Mas confesso que a possibilidade de encontrar algo valioso num ambiente sujo me instiga um pouco. No meio de poeira, lixo, lama, pobreza e fedor, eu encontrei um prazer que moradores de áreas nobres nunca me proporcionaram.
Ele era bem mais velho. Não do tipo bem conservado, mas maltratado pelo tempo. Mal sabia escrever direito. Morava a alguns quilômetros, num fim de mundo do qual nunca ouvi falar. Os motoristas do Uber não aceitavam me levar até lá. Tive que pedir na 99, pagar a mais e ainda selecionar um local com asfalto como ponto de destino. Teria que completar o resto do percurso a pé, caminhando pelo chão de terra. “Estou pedindo pra morrer”, pensei durante o trajeto. Além de todos os riscos envolvidos em se enfiar num fim de mundo com um estranho cuja índole desconheço, também tinha uma dificuldade logística. Já era fim de tarde, e o nosso encontro provavelmente se estenderia até o início da noite. Se eu esperei mais de meia hora pra achar alguém que me levasse até ali, imagina na hora de voltar? Eu ia ficar esperando no meio da rua, à noite, num lugar remoto que não conheço direito, com o celular em mãos, torcendo para um motorista menos esnobe me resgatar daquela situação? Mas deixei nas mãos da entidade que controla o mundo. Afinal de contas, quem tem que morrer, morre. Mesmo num carro blindado ou escoltado por seguranças. E quem tem que viver sobrevive às situações mais absurdas sem nenhuma sequela.
Fiquei aliviado porque os moradores daquela área nem repararam em mim – estavam mais interessados em cuidar das próprias vidas. Desejei ter me vestido pior, talvez estar usando trapos velhos e encardidos, mas estes provavelmente teriam chamado mais atenção. Quando avistei meu parceiro, boa parte das preocupações se dissiparam. Tinha cara de marrento nas fotos, mas pessoalmente parecia um nerd humilde. Ele murmurava umas coisas ininteligíveis enquanto eu o acompanhava até sua casa. Fingi ter ouvido com um som básico de concordância. Falava algo sobre um carro velho e sucateado que tinha perto de casa. Depois sobre uma tábua que colocou na entrada da casa pra gata não fugir. Aquele lugar era uma combinação equilibrada entre roça e favela, e me lembrava a época em que morei com meu pai. Depois de murmurar coisas irrelevantes, ele tomou a atitude de me beijar. E que surpresa. A boca dele não estava fedida. Pude me fartar naquele beijo, coisa que não consegui nos últimos encontros. Porque desta vez ambos os envolvidos estavam igualmente interessados em explorar a boca um do outro. Eu sugava a língua dele, depois ele sugava a minha. Eu chupava os lábios dele, depois ele chupava os meus. Ficamos um bom tempo só nisso, sem nenhuma pressa.
Depois ele tirou a camisa. E vi que o corpo era seco. Com a estatura de um ninfeto, mas sua pele não era nada jovial. Eu vi uma foto dele ainda menino, com uns 12 anos, e achei uma gracinha. Às vezes gosto de imaginar que tipo de menino existiu dentro de um homem. O tempo não foi bondoso com ele, claro, mas dificilmente o tempo poupa os mais pobres. Quando ele tirou a pica pra fora, achei que ia ser torta, mas não era tanto. E também não tinha fimose. Era menor e mais fina que a minha, mas não chegava a ser pequena. Puxei ele pra cima de mim e apalpei sua bunda freneticamente. Empurrava seu corpo pra frente e pra trás, fazendo ele roçar sua pica na minha. O último encontro em que fiz isso foi sem-graça, mas desta vez estava gostoso. Ele me mamou até que relativamente bem. Na hora de retribuir, percebi que sua glande não estava tão limpa assim. Talvez porque lá o acesso a água é intermitente, como ele deu a entender depois. Tentei dar um agrado, mas não me estendi muito no ato. Ele disse que era ativo, então o convidei a meter bem devagar no meu cu, que novamente não garanti estar 100% limpo. O pênis dele, por ser menor, entrou mais fácil, mas deixei claro que era minha segunda vez, então ele não socou pra valer. Por fim, nos deitamos abraçados e conseguimos gozar juntos na punheta.
Depois ele ainda me deu uns beijos e ficou sussurando coisas no meu ouvido. Sugeriu que tivéssemos algo fixo, mas talvez tenha falado isso no calor do momento. Eu não teria o menor problema em aceitar um namoro se ele não morasse naquele fim de mundo e tivesse um pênis mais limpo. Mas nem por isso vou encerrar nosso contato agora. Quero ver se consigo trazê-lo até a minha casa pra dar um bom banho nele.