Inexperiência tardia

Acho que minha jornada no Grindr está com os dias contados.

Durante todos esses meses, a força motriz da minha presença no Grindr foi a rejeição. A maioria dos que frequentam essa pocilga o fazem por prazer, mas eu queria compensar certas inseguranças. A verdade é que meu primeiro contato com esse ambiente me deixou incompleto, porque arrancou de mim a autoestima que fazia eu me sentir bem com a minha aparência. Eu já me achava um lixo antes disso, mas com certeza não me achava feio.

Mas é claro que os meus objetivos estavam desalinhados com as expectativas dos demais. Se eu queria ser validado, eles só queriam gozar, e alguns percebiam de cara que eu não podia lhes proporcionar um bom orgasmo. Eu passei tanto tempo pensando em como fazer outros caras me quererem, que nunca parei pra considerar o que eu faria quando alguém me quisesse. E depois de um bom tempo sem nenhuma notificação no Grindr, finalmente alguém me quis. Mas não por muito tempo.

Ele morava numa área pobre aqui perto. Avisei que tomaria banho, mas ele ficou o tempo todo me enviando mensagens. Meus banhos, quando ocorrem, tendem a ser demorados, e eu levo mais de 30 minutos debaixo do chuveiro. Após sair do banheiro e pegar meu celular, perguntei se ainda estava a fim, o que ele confirmou prontamente. Depois demorei alguns minutos pra me arrumar. Passei desodorante, protetor solar, hidratei meus braços e pescoço, e finalizei meu cabelo com creme de pele, como de costume. Ele já havia mandado algumas mensagens nesse intervalo, e aparentemente não lidava bem com a minha demora pra responder. Passei um perfume, chupei um halls, e basicamente estava pronto. Avisei que precisaria pegar um Uber, mas novamente ele não soube esperar. Perguntava a todo momento se eu já tinha saído. Eu até tentei puxar assunto sobre nossas preferências antes de sair. Disse que eu não costumava fazer sexo com penetração, mas dependeria do encontro. E nisso entram vários fatores. O quão eu acho o outro cara atraente, o quão estou confortável, o quão me sinto excitado. Esse cara pra mim era mediano. Era negro e tinha uma barriga ligeiramente inchada, apesar de o resto do corpo ser magro. Ele parecia mais velho pessoalmente do que nas fotos.

No início, me ofereceu um copo de água, o que encarei como uma bela oportunidade para ele me dopar, mas bebi mesmo assim. Então começamos a nos beijar. Ele foi me empurrando pro sofá. Puxei ele pra cima de mim e o beijei enquanto apalpava sua bunda magra. Assim que tirou a bermuda, ele já quis empurrar o pênis dentro da minha boca. Eu fico excitado pensando nisso agora, mas na hora foi meio intimidador. O pênis dele era grosso o suficiente para fazer o meu parecer fino. Foi a primeira vez que me vi diante de um falo daquele calibre. E era um pênis bonito, mas quase não coube na minha boca. Definitivamente não tive condições de engolir até a base, apesar de ele desejar isso. Tentei retomar o beijo em vez de ficar forçando aquele monumento de carne contra a minha garganta. Mas ele não estava no mesmo clima que eu, e logo seus dedos se aventuraram pelas minhas nádegas. No início eu tive que interromper aquela safadeza, pois nunca deixei outra pessoa inserir qualquer coisa dentro de mim antes. A minha maior preocupação era pelo fato de não ter preparado o orifício para receber visita. Mas ele disse que não tinha problema. Nesse momento eu lembrei que tive uma melhora intestinal após incluir o consumo de kefir, aveia e sementes na minha rotina. E também levei em conta que o papel saiu limpo quando me limpei após fazer minhas necessidades. Mas mais do que isso, eu queria que ele me dedasse. Então permiti que continuasse. Ele mal introduziu o dedo direito, e já queria meter o pênis inteiro. Não era bem o que eu tinha em mente, porque esperava que ele tentasse dilatar meu ânus com a boca e os dedos antes penetrá-lo com o pênis. Mas ele evitou essas preliminares, seja porque estava com pressa ou porque não queria sujar os dedos de bosta. Caso fosse o segundo motivo, ele se preocupou à toa, pois pude confirmar depois do encontro que a barra estava limpa. A primeira possibilidade era provável, porque ele me disse que poderia gozar a qualquer momento se eu estivesse de acordo. Acho impressionante a facilidade que esses caras têm pra gozar com um estranho que acabaram de conhecer.

Independente disso, ele só conseguiu me penetrar até certo ponto, porque eu sempre pedia para ele parar. Não sei se meu ânus é disfuncional como a minha mente, mas chegava num ponto em que simplesmente ficava doloroso demais pra mim. Ele pedia repetidamente que eu relaxasse o cu, mas eu não tinha ideia de como fazer isso. Tentei voltar pros beijos, mas ele apresentou certa resistência e quis ficar metendo na minha boca. Ele pediu pra gozar dentro, mas eu virei a boca após o primeiro jato de esperma inundar minha língua, já conhecendo a sensação desagradável que vinha depois. Por fim ele terminou de gozar no meu peito e ainda reforçou que havia me avisado sobre sua intenção de encher minha boca de porra. Mas que diferença isso faz? Saber que sua boca vai ser preenchida por uma substância quente, salgada e viscosa não torna a experiência menos nojenta. Não sei como as mulheres e gays passivos conseguem fingir que gostam de ter aquilo na boca.

Por falar em boca, a minha começou o encontro limpinha e refrescante, mas agora estava toda lambuzada e fedida. Independente disso, confesso que queria ter beijado muito mais. Não sei se beijo bem, mas com certeza gosto da experiência. Principalmente quando um macho enfia a língua na minha boca e me deixa ficar sugando ela – é muito gostoso fazer isso.

Fui ao banheiro cuspir um fio daquela geleia reprodutiva e enxugar meu peito. Ele agiu como se eu estivesse demorando. Se antes ele estava com pressa para me ver chegar, agora não via a hora de eu sair. Não escancarou esse incômodo com a minha permanência, mas deu pra perceber que o clima pesou. Eu não atingi o clímax e nem fiz questão de tocar no assunto. Ensaiei uma saída educada quando estava no banheiro, mas no fim eu só me vesti apressadamente enquanto ele me perguntava se estava tudo bem. Eu disse que “sim”, ele disse que “não parece”. Na verdade, eu ainda estava tentando processar o que aquele encontro significava pra mim. Se eu ia deixar ele se tornar um trauma ou apenas uma história engraçada. Ele quis me pintar como alguém inexperiente. Perguntou de cara com quem eu morava e se me deixaram sair assim no meio do tarde, como se eu fosse uma criança que fugiu de uma creche. Disse que fez essas perguntas porque queria me conhecer melhor, mas me bloqueou logo após o encontro. Na verdade ele só procurava um motivo para o encontro ter dado errado, assim poderia transferir a culpa para mim e se eximir de qualquer responsabilidade, ficar de consciência limpa e ainda manter sua performance sexual livre de contestação. Não teve nada a ver com o fato de ele ser um bruto que quis me foder com o pau enorme usando apenas saliva como lubrificação, mesmo sabendo que era a minha primeira vez como passivo. E a forma como agarrava o meu pau de uma vez com toda a força, como se quisesse me machucar, me tirou qualquer interesse em pedir um boquete durante o ato. Logo o meu Uber chegou e eu pude me livrar do papo fiado.

No carro, eu fiquei me perguntando quem levou mais vantagem naquele encontro. Ou melhor, quem teve menos prejuízo. Senti que me expus a uma situação degradante só para satisfazer a vontade alheia. Mas me veio um breve orgulho de finalmente ter sentido um pênis na minha bunda. Tirando o fator psicológico, o encontro não parece ter me prejudicado fisicamente. Meu ânus está relativamente confortável agora, justamente porque impus limites durante o ato. Não tive nenhum incômodo ao sentar no banco do carro quando o Uber chegou. E relatar o que aconteceu me deixou excitado agora. Estou pensando em ir pro meu quarto e me aliviar. Pelo visto, a ideia de fazer sexo é mais excitante do que o sexo propriamente dito.

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