Percurso

Um dos meus projetos falidos foi tentar escrever um livro de dezembro a janeiro desse ano. A história seria narrada por um alienígena milenar que adotou uma identidade humana e trabalha para um editora que o contratou para escrever um livro sobre um humano bem esquisito.

Desde o início ele se incomoda com o humano. Julga e despreza ele constantemente. O humano é gay, tem ginecomastia, 25 anos e não trabalha, mas passa o dia inteiro exercitando o péssimo hábito de falar sozinho. O humano basicamente era eu.

A hostilidade do narrador rapidamente se intensificava. Em poucos capítulos, ele invadia a minha casa durante minha ausência, o que me provocava um acesso de fúria. Mas logo depois a dinâmica de poder se inverte. É quando eu invado o cúbiculo onde o narrador mora enquanto ele está presente, mas ignoro sua presença e trato seu lar como uma lata de lixo, descartando casualmente uma embalagem ali. A partir daí, o narrador entra em uma espiral de insegurança e ressentimento, começa a reproduzir os mesmos hábitos que condenava em mim e depois me persegue durante uma caminhada pela ciclovia do bairro.

Ainda não desisti de escrever o livro, mas os rascunhos iniciais estão muito longe de serem algo publicável. Minha ideia era demonstrar que qualquer pessoa exposta às circunstâncias indigestas da minha vida acaba se rebaixando ao meu nível. Sabe o ativo padrão do Grindr que tem uma fila de viadinhos esperando para sentar nele durante a semana? Imagine se, de uma hora pra outra, toda essa carne sumisse. Nesse cenário, nenhum gay dá tap nele. E quando ele manda foto, os caras sempre bloqueiam. Mesmo alguém com a autoestima lá nas alturas se deixaria afetar por isso. Basta estar no meu lugar por um tempo para entender a forma como eu ajo.

Voltando à história, que não admite ter um alienígena como narrador, mas dá vários indícios disso, principalmente no capítulo “Percurso”. Não vou transcrever todo o conteúdo aqui, mas dar uma ideia do que era. Por exemplo, se esse capítulo fosse um clipe de música, provavelmente seria o de Bittersweet Symphony. Um cara caminhando na rua em linha reta sem se importar com ninguém que aparece em seu caminho. É isso o que o nosso protagonista faz. Uma criança joga um punhado de areia na cara dele, mas ele mantém o ritmo da caminhada sem esboçar qualquer reação. Um carro quase o atropela e o motorista dá uma freada brusca antes de começar a praguejar. Mas o personagem finge que nem ouviu. O narrador obviamente critica sua falta de noção a todo o tempo. Mas a reação do humano a esse escrutínio é simplesmente FEDER, exalando pelas axilas um odor característico de cebola azeda que empesteia as narinas do narrador. No final do capítulo, os dois chegam à metade do percurso e é hora de voltar pra casa. O humano dá meia-volta. Encara o narrador, que está a alguns metros de distância. E então começa a correr, novamente ignorando sua presença. Tudo o que o narrador pode fazer é se lançar para fora da ciclovia antes de ser atropelado por aquela bomba de fedor desgovernada. Apesar de o personagem ter sido inspirado em mim, eu usava a ficção para dar vazão a coisas que eu não teria coragem de fazer na vida real… Até agora.

Hoje três viadinhos me mandaram mensagem no Grindr. Mas que tipo de perfil eu criei lá desta vez? O filtro absoluto. Vou explicar. Há aqueles que me rejeitam por causa das minhas fotos de rosto, enquanto outros me ignoram por causa da minha foto sem camisa ou me bloqueiam por causa do meu nude. Por último existem os que perdem o interesse por conta da minha personalidade. Resolvi criar um perfil que repele todos esses energúmenos ao mesmo tempo. Porque coloquei nele a foto do meu abdômen cheio de cicatrizes, seguida por várias fotos do meu rosto decadente, e o link para o meu blog na descrição. Alguns poderiam se contentar com meu tórax feio, meu rosto zoado e minha personalidade irritante, mas ainda assim me rejeitariam por causa do meu pênis inofensivo. O Grindr não permite que eu coloque nudes no perfil pra já saberem o que esperar da minha ferramenta intermitente, então tive que usar a criatividade. Por isso o meu nome no app agora é “PauPequeno”.

Quanto aos que apareceram para falar comigo mesmo após todas essas red flags, infelizmente nenhum deu resultado. O primeiro parou de mandar mensagens quando eu disse que gostava de ser pisoteado. O segundo pediu meu número do Whats e depois tomou chá de sumiço (provavelmente vai usá-lo com más intenções). O terceiro disse que só queria sexo, e depois enviou um álbum exclusivamente composto por fotos da raba e nenhuma do próprio rosto. Esse último fui eu que ignorei, mas o que posso fazer? Homens que se resumem à própria bunda não me excitam de verdade. Gosto daqueles que sabem dar e receber, se é que me entende.

Fui fazer minha caminhada diária (deveria ser diária) após me frustrar por mais uma vez não ter conseguido achar ouro no meio da lama. Coloquei post-punk ucraniano pra tocar em repetição, e… Não sei o que deu em mim. A primeira metade do percurso foi bem tranquila e não aconteceu nada fora do comum. Mas bastou eu dar meia-volta antes de refazer o caminho de volta para casa, e apareceu uma bicicleta. Ela estava a alguns metros de distância, numa velocidade razoável. Eu poderia ter esperado, era só uma fração de segundo. Mas atravessei para a outra faixa da ciclovia. O ciclista desviou bruscamente para não me acertar. E depois ficou olhando para trás, enquanto minha boca arreganhava um sorriso de demente.

Logo depois, um cara passou ao meu lado correndo. Eu estava sorrindo de orelha a orelha e me gabando em silêncio pelo acidente que quase provoquei. Passei a correr logo atrás dele, o que fez ele estranhar a minha mudança repentina de ritmo. Eu dava passos destrambelhados e serelepes, quase como uma imitação jocosa de seu trajeto. Ele me olhou várias vezes por cima do ombro, com uma expressão de confusão, antes de resolver acelerar mais o passo e me deixar pra trás.

Veio outra bicicleta, e eu troquei de faixa só pra ficar na contramão e obrigar o ciclista a desviar de mim. Mas não foi repentino o suficiente para ter risco de acidente dessa vez.

Por último, encontrei um cara cansado voltando para casa de mochila. Apesar de mais alto que eu, ele tinha o passo lento, então era questão de tempo até eu ultrapassá-lo. Mas prolonguei essa ultrapassagem por vários minutos desconfortáveis. Chegava perto de ultrapassar, ficava bem rente a ele, mas reduzia o passo na hora e deixava ele tomar a dianteira. Fiz isso várias vezes, sempre chegando perigosamente perto, mas fingindo estar distraído e evitando encostar nele. Até que ele parou completamente de andar e eu não tive escolha a não ser deixá-lo para trás. Mas não me dei por vencido. Fiz uma pausa num ponto de ônibus alguns minutos depois, e esperei que ele me alcançassasse antes de alugar um patinete elétrico e passar bem na frente dele, com uma proximidade atrevida que foi compensada pela velocidade do patinete antes que resultasse em algum conflito.

Assim eu voltei pra casa, mantendo o patinete sempre acelerado enquanto percorria o asfalto irregular aos trancos e barrancos, e atraindo vários olhares de julgamento em minha direção. E por que eu teria feito isso? “É pra chamar atenção?” (um psiquiatra me perguntou isso sobre minhas cicatrizes de automutilação em 2015). E que bem isso poderia trazer?

Mas vamos ser realistas. Que bem eu poderia esperar desse mundo? Praticamente nenhum. Independente-Do-Que-Eu-Faça. E ser julgado pelos outros não é nenhuma novidade pra mim. Minha vida já era uma bosta antes de agir feito a um demente na rua, e vai continuar sendo. Pelo menos eu posso me divertir um pouco. Talvez seja atropelado por uma bicicleta, e isso seria doloroso, mas sofrimento faz parte da vida, é algo inevitável. Talvez um valentão resolva me dar uma lição física, mas sentir os punhos de um na minha cara seria o primeiro contato físico que eu tenho com um homem há um bom tempo. Se não posso ter o afeto, vou me contentar com a violência deles. Antes isto do que esquecer como é ser tocado por um.

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