Recaída

Esse mundo realmente não é para amadores. Não achei que ia voltar a falar sobre isso tão rápido. Tirar férias do blog já está parecendo um sonho distante. O pior é que este post nem tem uma razão de ser. É só mais do mesmo.

Talvez esteja chegando a hora de submeter meu ego ao teste final. No início, usar o Grindr era fora de cogitação pra mim. Depois de tentar contratar os serviços de um GP e basicamente ser rejeitado por ele (eu até me pergunto que tipo de público ele tem e se são muito superiores a mim, afinal estamos falando de pessoas que pagam pra transar), fui tentar a sorte no ifood do sexo. Estava bem cheinho e desgrenhado naquela época. Tentei pentear meu cabelo e procurar um bom ângulo, mas fiquei com aquela juba ressecada emoldurando o meu rosto. E a barba que cultivei por puro desleixo mais parecia uma sucessão de pentelhos anexados ao meu rosto rechonchudo. Tudo isso com aquela expressão socável de filhinho da mamãe, que transparece inocência quando deveria transparecer sacanagem. Sim, aquele lugar não era pra mim. E eu estava prestes a ver meu ego ser massacrado de uma forma que nunca foi antes.

Eu dava atenção pra caras que eu nem achava atraentes. Talvez esperasse um pouco de validação deles. Mas o resultado mais comum era mostrar minhas fotos e levar um block ou ser ignorado. Teria sido menos devastador se eu soubesse que o Grindr funciona exatamente assim. Nunca gostei de ser bloqueado, pra mim é o cúmulo da falta de consideração. Como se a pessoa que te bloqueia basicamente tivesse o direito de excluir a sua existência do Universo dela por um motivo qualquer. Na maior parte do tempo, basta não ser uma mala pra não te bloquearem em outras redes sociais. Mas no Grindr isso é mato, e ninguém está imune a isso. Até o padrão dos padrões eventualmente vai ser bloqueado por alguém (mas nem vai se importar, porque enquanto um bloqueia, outros fazem fila pra sentar nele). Confesso que eu mesmo dispenso alguns nesses apps de match por achar que eles são bonitos demais para quererem algo comigo. E não vou negar que, quando o cara é bonito demais, automaticamente passa a imagem de ser superficial, arrogante e inacessível.

Uma vez me disseram no Reddit que o conceito de “mundo gay” não existe na prática. Que existe diversidade no mundo gay, vários grupos com diferentes preferências. Isso não faz muita diferença pra mim. Se os twinks me rejeitam, se os padrões me dispensam e os bears me excluem, se levo fora de ativos, passivos, versáteis e gouines, no fim são todos a mesma coisa pra mim. E eu até tento procurar alguém que fuja a essa regra, mas parece ser mais raro do que ganhar na loteria.

Seria leviano limitar o mundo gay ao que acontece no Grindr, certo? Bem, eu não sou o tipo de pessoa que frequenta eventos LGBT’s. Esse tipo de ambiente faz eu me sentir como um peixe fora d’água. Pode parecer frescura, mas simplesmente não tem nada a ver com a minha personalidade. Mas beleza, o Grindr não é o único app que oferece esse tipo de “conexão”. Cheguei a explorar plataformas alternativas, como Tinder, Surge, Happn… Nesses últimos, não tive nenhum retorno. Foi literalmente zero o número de curtidas que recebi. Já no Tinder, que eu nem tive coragem de usar por muito tempo, recebi mais de 100 curtidas em algumas horas. Claro, basta mostrar apenas fotos do meu rosto pras pessoas ignorarem a aberração que se esconde debaixo da minha camisa. Em pouco tempo, o número de curtidas foi justificado. A maior parte dos que deram match comigo eram pessoas de outro estado. Enquanto a vitrine do Grindr exibe principalmente os promíscuos mais próximos, o mostruário do Tinder tem um alcance bem maior. Também tive a impressão de que os caras do Goiás são mais pé-no-chão que os de Brasília. E mesmo que eu tenha visto várias figuras repetidas (inclusive caras que me bloqueavam no Grindr mas davam curtida no Tinder), o Tinder no geral parecia um ambiente melhor frequentado do que o chiqueiro vizinho.

Pois bem, não tive muita sorte com essas alternativas ao infame ifood do sexo, e sinto que não tem muito pra onde correr. Tentar me rebelar contra o funcionamento padrão do mundo gay não me trouxe nenhum benefício até agora. E mesmo que eu tente dançar conforme a música, é questão de tempo até meus passos em falso denunciarem a minha falta de experiência. Isso quer dizer que o mundo gay fechou as portas pra mim e me jogou na sarjeta? Talvez. Mas isso não significa que eu aprendi a lição. Nessa madrugada, tive uma das minhas clássicas recaídas, dessas que desconsideram todo o meu progresso em desenvolver um senso mínimo de autopreservação.

“Isso aqui é um açougue. Detesto ser tratado como um pedaço de carne. Desprezo os vetores de IST que levam essa vida devassa. Se você é do tipo que senta numa pica diferente a cada semana, passa longe. Se você quer um corpo perfeito ou 20cm de pica, passa longe”

Ele leu o meu nome, “dilacerado”. Gostou da minha bio, disse ele. Perguntei se ia me bloquear caso não gostasse das minhas fotos. “Não sou esse tipo de pessoa”, disse ele. Sugeriu amizade caso não rolasse atração. Talvez só para me convencer a enviar as malditas fotos de uma vez. Então eu enviei. E prontamente ele fez o que disse que não faria. Foi decepcionante, sim. Até gostaria de acreditar que ele só fez isso pra esfregar sal na minha ferida. Mas o mais provável é que tenha me achado brochante, mesmo. Minha reação nesses casos normalmente seria muito mais dramática e escandalosa, uma verdadeira tempestade em copo d’água. Mas até que eu não dei tanta importância. Talvez pela falta de sono me deixando apático (dormi só 4 horas hoje), ou porque já estou ficando calejado.

Vou aproveitar esta sensação anestésica que por ora acomoda minhas emoções, e submeter minha carne ao escrutínio final. Acho que não tenho mais nada a perder. Minha autoestima desceu pelo ralo, minhas expectativas rastejam no chão. Se antes eu nem queria chegar perto do Grindr, hoje me rendo completamente a ele. Façam o que quiserem comigo. Minha carne não está valendo muita coisa mesmo.

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