It and its tentacles

Não pude encontrar na minha língua nativa um título que “caísse como uma luva” sobre este assunto. Na verdade, eu até duvido que eu tenha atingido como escritor a maturidade necessária para discorrer sobre algo tão amplo. Às vezes não basta ter vocação e motivação. Você precisa de bagagem pra pavimentar o caminho.

Por outro lado, li num livro que a quantidade de material produzido em certos ofícios tende a ser estatisticamente mais relevante do que a qualidade desse material. “Li num livro” parece uma referência fajuta, né? Mas basta estabelecer uma lógica. Quanto mais se produz, mais se exercita o ato de produzir, e com isso se ganha experiência, aprende-se com erros, expande-se os horizontes, etc. No fim acaba sendo mais vantajoso do que esperar a oportunidade perfeita pra colocar o seu talento em prática. E é só por isso que eu cogito navegar nessas águas turvas. Digo “cogito” porque nem é garantido que eu termine este texto.

Espero não precisar fazer esse tipo de introdução no início de cada post. Claramente se aproxima o momento em que o meu preparo será insuficiente para tocar este projeto adiante. Deve ser o efeito de “It” começando a interferir na minha clareza mental. Tanto que me veio uma sensação de déjà vu. Não é a primeira vez que uma tentativa de falar dEle acaba sendo alvo de sabotagem.

Será que Ele não quer ser reconhecido? Não quer o crédito por todas as vezes em que empatou minha vida? Não só está fazendo o meu texto perder o sentido, como também faz parecer que eu sou louco. A parte mais difícil de lidar com “It” é perceber que ele também está entranhado em mim. Mas como isso seria possível?

Quando você não gosta de um pedaço de si. E o incômodo é tão extremo que chega a causar uma disforia. Mesmo te machucando, algo te impele a mutilar aquela extensão da sua anatomia. Será que isso justifica o ódio do todo pelo indivíduo? E quais são as chances de um membro se rebelar contra o resto do corpo? Estamos vendo as minhas chances indo por água abaixo a cada parágrafo que passa. Será que eu já perdi o leitor? Se é que em algum momento eu tive sua atenção. Afinal, o leitor é apenas mais um de seus tentáculos.

Ainda me pergunto se ele está me testando, me lapidando, me punindo ou apenas se divertindo às minhas custas. Talvez esta fosse uma pergunta para todos nós fazermos. Mas não existe “nós”. Minha vida sempre deixou isso claro. Sempre foi vocês (alinhados, coordenados, entrosados) e eu (destoante, deslocado, perdido). E o abismo entre as duas coisas me convencia de que minha natureza era diferente. Que eu era puro, independente, livre das influências de it. Selvagem como uma ovelha desgarrada, que seus tentáculos sempre encontravam uma oportunidade para castigar. Mas frequentemente fiz coisas que me trouxeram a minha própria ruína. Mesmo sabendo que havia um risco a ser corrido. E com it, não se pode dar brechas. Agora ele está mais entranhado do que eu gostaria. Teria ele reprogramado minha mente? E quão forte eu precisaria ser pra sobrepujar o jugo dEle? Nesse mundo que ele criou, nada é mais importante do que dinheiro. Mas é improvável que eu reúna o suficiente para ser livre.

Tudo o que posso fazer é me esconder no meu covil. Evitar riscos e consequências. Raramente a inação me trouxe problemas. Ele não se contenta em me torturar, pois prefere atribuir parte da responsabilidade a mim. Sabe aqueles nãos que recebi? “Você é um mongolão que não sabe tirar foto, tem cara de soca fofo, filhinho de mamãe e inválido que não sai de casa – e ainda espera que alguém se excite com isso?”. Bem, eu esperava. Nos seus tentáculos encontrar. Alguém diferente, alguém como eu. Alguém cujas preferências me admitam. Alguém que goste de mim pelo que eu sou, e não pelo teatro – que as suas marionetes performam constantemente.

É mais difícil ferir alguém cujas expectativas foram adestradas. Basta encarar a humanidade como uma massa homogênea, com as mesmas preferências e as mesmas aversões. Sempre ter o não como certo. Não esperar nada de bom dessa massa e me considerar sortudo se eu sequer receber um bom dia ao fazer compras no supermercado. Não me deixar iludir por elogios ou ser abalado por críticas. Ele me fez acreditar que eu era desejável, cobiçado. Nem eu acreditava nisso, mas ele sempre colocava tentáculos pra despejar mel nos meus ouvidos. A queda não seria tão grande sem ele inflar minhas expectativas primeiro. Todo esse preparo pra espetacularizar ainda mais a minha rejeição. E como devo ter te entretido. Mas agora eu sei que não posso encontrar amor num mundo criado por você.

Os seus tentáculos fomentam essa cultura de colocar o sexo como ponto alto da vida. Mas eu já destoei em tantas outras coisas. Por que não posso contrariar isso também? Tô cansado de dançar pra sua música e todas as desgraças que isso me trouxe. É chegada a hora de escrever minha própria história. Eu não vou procurar nem vingança. A menos que você me ofereça de bandeja… Aí pode ser que eu esnobe, mas pode ser que eu aceite. Não vou fazer nenhum esforço para atingi-la. Você não vale o meu esforço. É você que tem que implorar pela minha atenção, não o contrário. Vou deixar tudo o que aconteceu nesse início de ano cair no esquecimento. Você vai ter que se esforçar mais se ainda quiser me desestabilizar.

Este texto não passou pelos mesmos critérios de clareza dos anteriores. Até então, eu escrevi pensando no público, mas vou pensar mais em mim doravante. O público que se vire se quiser decifrar o que está escrito. Esse mundo me negou algo básico, como um namorado. Certamente me negará sucesso artístico. Então não espero nenhum reconhecimento. E não vou ficar esmerando minha escrita à toa. Basta que ela sirva como receptáculo da minha contrariedade.

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