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Terei me precipitado em expor as fuças aqui? Bem, tanto faz. Até porque ninguém lê isso aqui. Ninguém que dá sinal de vida.

Ano passado, tentei criar um blog e fiquei revoltadíssimo quando começaram a comentar nele. Fiz até um post em tom ameaçador sobre aquele ser o meu território e blá, blá, blá. Quisesse privacidade, bastava não criar um blog público. Mas o que me tentava era sempre a possibilidade de ser descoberto por alguém, ainda que essa possibilidade não se consumasse.

Eu sabia que apenas um diário não serviria pra mim. Talvez sirva pra garotas de 11 anos, e não é sendo machista. Muita coisa que eu escrevo não faz sentido pro brasileiro médio em sua educação deficiente. Tudo bem, porque o brasileiro médio não é o meu público-alvo – se é que eu tenho um. Mas acontece que o propósito de um diário é muito mais simplório e reduzido. Você pode, sei lá, ter um caderno bonito, caprichar na caligrafia, usar canetas coloridas e anexar fotos, desenhos, etc. Fico imaginando quais desenhos eu faria.

Sabe aqueles desenhos de crianças traumatizadas em que um integrante da família aparece como um monstro? Se eu fizesse um autorretrato, o monstro seria eu. E não aqueles monstros ameaçadores, mas um que fosse simultaneamente repugnante e patético.

É claro que um diário dá margem pra criatividade. Mas nas minhas mãos seria uma coisa pálida, fria, anêmica… Sem vida e sem cor. Não tenho o deslumbramento de uma garota de 11 anos, afinal. Se bem que as atuais parecem ser corrompidas pelas redes sociais desde muito novas.

Nesse fim de semana vou ao aniversário de uma… que tem treze, na verdade. Enteada da minha irmã. Ela se parece comigo em alguns sentidos, mas em outros é drasticamente diferente. É similar no que há de pior em mim. Era muito afetuosa e saía abraçando qualquer um. Eu também fui assim, mas não por muito tempo. Além disso, ela também tem uma família desestruturada, e sinto que tanto a mãe, como o pai e a madrasta não a tratam do jeito que ela merecia. Pra você ter uma ideia, a única na família que eu realmente vejo tratá-la bem é a minha mãe. E isso é um péssimo sinal, porque minha mãe é o tipo de pessoa que fala mal até dos netos biológicos. Mas não deveria, porque provavelmente são a única descendência que ela vai ter. Afinal minha irmã do meio é infértil, e eu… Bem, vocês sabem o que eu sou.

Acho que seria típico de um diário deslizar num assunto aleatório (como acabei de fazer) e nem se dar o trabalho de recuperar o fio da meada. Mas como estou escrevendo em um blog, tenho a preocupação de constituir um texto minimamente lógico. É essa preocupação que serve como um incentivo para escrever melhor. O tipo de coisa que eu escrevia num diário, sinceramente, era perda de tempo. Ficava tão livre, e confuso, mas ao mesmo tempo banal, que eu voltava após alguns dias sem entender nada do que estava registrado ali. O “eu” do diário conseguia ser ainda mais chato do que o “eu” do blog. E não me aliviava, sabe. Era como se, perdoem a comparação nojenta, eu estivesse mijando no mesmo pote onde eu beberia depois. Eu não conseguia botar de fato as toxinas pra fora do meu “sistema”. Se um blog flui como um rio, um diário acumula água como uma represa. Quem diria que o risco de ser lido por alguém faria tanta diferença.

O que escrevo aqui é fundamentalmente pessoal, e por isso não será do interesse de ≈99% das pessoas. É o tipo de coisa que talvez nem eu gostaria de acompanhar, fosse escrito por outro viado amargurado. Mas está me ajudando a me desenvolver. Serve como uma máquina do tempo para o que eu pensava há dias, semanas atrás. O que – em teoria – ajuda a identificar padrões na minha vida e nos meus comportamentos, e talvez a não repetir erros meus que já relatei aqui.

Sinto que minha escrita melhorou um pouco. Antes era muito experimental e emperrada, não tinha naturalidade nenhuma. Agora flui de mim sem o mesmo embaraço.

A ideia de frequentar esse espaço como um hábito de longo prazo me conforta. Posso exorcizar pouco a pouco todos os demônios do meu passado, e melhor ainda: os que ainda estão por vir. O que quer que a vida resolva despejar na minha cara, eu terei a chance de extravasar aqui. Nada que acontece comigo vai “ficar por isso mesmo”. Nenhum mal que me fizerem passará despercebido. Do mal que eu fizer, talvez eu me vanglorie, talvez me arrependa, mas tudo isso será avaliado em forma de texto.

Praticamente um sonho realizado. Pra que ele se justifique, basta abastecer a minha mente de vocabulário e acontecimentos – será a tinta que empregarei no retrato deste mundo.

Que o mundo se encare de volta a partir dos meus olhos. E veja um retrato grotesco.

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