O autor e sua casca

São 5 horas da manhã e decidi adornar o recinto com algumas frivolidades a mais. Na falta do Zolpidem oferecido pelo golpista, minha insônia segue a todo vapor. Nem sei se deveria julgar o golpista, porque tenho pra mim que quem está no Grindr merece mesmo ser vítima de um crime. Muito se fala em homofóbicos que usam o Grindr para praticar violência contra gays. Antes eu achava revoltante que esses delinquentes estivessem infiltrados entre nós. Imagina ter tanta aversão aos gays que você resolve… baixar um app gay? Pra marcar encontros com gays? Que porra de contradição é essa? Mas agora eu entendo… Sou a prova viva dessa contradição. Apesar de a minha casca não servir como isca pra atrair potenciais vítimas. Eles preferem aqueles psicopatas que se fazem de héteros e transbordam masculinidade, perigo e violência. No meu caso, não adianta argumentar que tenho uma aparência acima da média se passo a impressão de ser soca fofo. Inclusive, a hierarquia do que atrai o gay médio provavelmente é masculinidade > pênis > corpo > rosto. Ou seja, meu principal atributo fica em último lugar. E logo isso que eu tinha de melhor agora está caindo aos pedaços. Eu fiz muitas escolhas erradas no passado. Errar é praticamente meu estilo de vida. Talvez todos esses erros estejam enfim cobrando o seu preço, e ficando estampados na minha pele, na minha casca. Se quisermos rastrear tudo o que essa “cobrança” me custou, tracemos uma cronologia da minha erosão facial.

Esse era eu em 2019. Bicho magro, restrito a ingerir a lavagem que me serviam no cocho.

Eu sei que pode não parecer muito. Você olha a imagem e pensa que é só um branquelo orelhudo qualquer. Nunca fui muito fotogênico e essa foto não exatamente me valorizou. Mas dá pra ter uma ideia. Comparado ao que sou hoje, puta merda, meu passado vira o meu maior sonho. As entradas no meu cabelo ainda não tão acentuadas, muito embora eu duvide que esse seja meu defeito principal. Completamente livre de cabelos brancos. Sem essa cara de bolacha esburacada que eu tenho agora. E esse olhar… Cara de quem vai trazer problemas. Gays e mulheres adoram isso. Ok, tô zoando. Não era nenhum sex symbol. Só mais magro e mais novo. O que faz toda a diferença.

“VOCÊ ME CANSA, ME ENOJA E ME DÁ AINDA MAIS VONTADE DE ZOAR ESSA TUA CARA DE DOENTE MENTAL”,

foi o que um dos meus desafetos da internet me disse em 2021. Nunca esqueci até hoje, CADA-UMA-DAS-PALAVRAS-EM-CAPS-LOCK. A única foto minha que ele tinha visto era essa, então suponho que ele se referia a ela quando disse que eu tenho cara de doente mental. Essa foto fez uma lésbica borderline que me desprezava e que eu passei um ano perseguindo dizer que eu era “lindo”.  Jeez. Pra me achar lindo, o lugar onde ela vive só deve ter pessoas horrorosas. E olha que é em um bairro pobre de SP-capital. Pra você ver como algumas pessoas têm a régua lá embaixo enquanto outras a têm nas alturas. Analisando só a foto, posso dizer que meu cabelo precisava de tesoura, pente e creme de pentear. Algo que não falta nas fotos recentes.

Outra coisa que não falta é gordura.

Talvez nem dê pra perceber, mas estou 20 quilos mais pesado atualmente. A comida onde eu morava antes era uma bosta, mas talvez a privação me fizesse mais saudável do que o excesso. Dá pra perceber o quanto eu envelheci, né? Não tenho mais cara de 19 aninhos, rs. Apesar de todo o downgrade, acho que o que afungenta mais gays nessa foto é o olhar de quero pica que eu lancei pra câmera. Tentava atrair os caras com um nome genérico tipo “ATIVO COM LOCAL”, mas de que adianta, se as fotos não transmitem a “atividade” de um? Talvez alguns deixassem passar se o meu instrumento compensasse essa falta de macheza. Mas infelizmente não é o caso.

Essa eu tirei enquanto defecava este post.

Pra quem passou o fim de semana comendo McDonalds, dormindo tarde e sem tomar banho, eu esperava sair mais feio neste registro. Faz até parecer que eu ainda tenho a chance de restaurar esta casca carcomida se passar a me cuidar direito. Claro que nem isso bastaria aos gays do Grindr. Mas eu teria menos raiva ao encarar o espelho.

As entradas só dariam adeus se um implante batesse à porta. Os fios brancos ficaram tímidos na foto, talvez porque os disfarcei com tinta semipermanente no início do mês passado. De resto só faltaria emagrecer essa cara inchada de quem come mais do que precisa.

Se o Universo me der tempo, farei todas essas correções. É um progresso que vou gostar de relatar aqui. Ainda que não me torne isca no rio da promiscuidade, que eu voe como ave majestosa que eles nunca poderão alcançar, e…

…esquece. Eu tô pedindo pra ser zoado.

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