Primeiro morto

Hoje vi um cadáver na minha frente, e não senti nada.

Este blog estagnou junto com a minha vida sexual. Mas achei que os últimos acontecimentos seriam dignos de nota.

O pai da minha prima adoeceu. Problema nos rins. A complicação trouxe consequências ao resto do corpo. Já era velho, 76 anos. Bem a expectativa de vida brasileira em 2026. Pouco tive de convivência com ele nos últimos anos. Minha tia, que me criou, é (era) mulher dele, mas já não somos tão próximos. Eu segui um caminho tão desgarrado que as pessoas que eram o meu mundo deixaram de ter importância para mim. Não era o caso dele, que eu via somente como um apêndice familiar da minha tia, desde o início. Sempre dizem que ele ficava me adulando quando eu não parava de chorar, mas obviamente não lembro disso.

O casamento deles não foi dos melhores. Ela negra, ele gaúcho de ascendência polonesa, tiveram duas filhas bonitas. O interessante é que ele teve uma vida pregressa com outra mulher, mas o comportamento sempre foi o mesmo. Dado aos vícios no álcool e nas apostas, sempre destratando a própria esposa. Não acho que chegasse ao ponto da violência física, mas a verbal era frequente. Claro, minha tia não deixava barato. Ela sempre foi dura na queda, e aquele jeito bruto a livrou de diversos tipos de adversidade. Isso não impediu que me preocupasse. Mas percebo que o falecimento desse homem é justamente o que vai garantir à minha tia uma compensação pela vida árdua que ela teve até agora. Principalmente porque ele não deixou nenhuma culpa para trás. Partiu em bons termos, pedindo perdão onde era necessário.

Me dói um pouco que a minha prima passe pela dor dessa perda aos 22 anos. Durante o velório, ela fez um discurso sóbrio e elegante, com tudo o que precisava ser dito. Minha mãe, minha irmã e minha outra tia caíram no choro. Eu derramei uma lágrima, e só. Gostaria de ter prestado mais apoio. Mas muito ajuda quem não atrapalha. Além disso, eu fiz o que era esperado de mim. Quando ele estava doente, paguei um dos plantões de 12 horas para a mulher que cuidava dele.

Todo o velório foi envolto em muitas rezas e pregações religiosas. O cadáver dele tinha sido “preparado”, mas não era uma visão agradável, o que me faz questionar o sentido de certas tradições humanas. Todo pálido e inerte, mais parecia um boneco de cera. Eu que não quero estar exposto aos abutres após minha morte. Prefiro uma morte primitiva, entregado nu à terra e seus decompositores pelo amor da minha vida. E que certas pessoas nunca conheçam o fim que eu levei.

Mas o cemitério era bonito, repleto de árvores e flores. Sobretudo transmitia uma sensação de paz. Caminhamos lentamente acompanhando o caixão. Ao chegarmos numa seção mais “humilde” do lugar, o Sol que precede o meio-dia castigava nossas peles, e ele foi depositado numa cova funda e selado por blocos de concreto, terra e grama.

Depois voltei para casa e comi sushi.

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