Odiar meus “iguais” é inevitável.

Sabe quando a raiva que você sente é tão grande que dá um nó na garganta? Ou quando literalmente te traz uma sensação de mal-estar, como se o seu sangue estivesse borbulhando e você estivesse prestes a tremer da cabeça aos pés? Sua respiração fica pesada e no fundo ainda vem uma leve ânsia de colocar pra fora a sua última refeição. Eu costumava sentir isso quando lia comentários preconceituosos na internet. Mas agora sinto isso em relação a uma minoria da qual faço parte.

Quando um gay demonstra isso pelos seus iguais, frequentemente isso é interpretado como uma dificuldade em se aceitar ou influência de uma criação religiosa/conservadora. Não é o meu caso. Meus pais não são religiosos ou conservadores, no máximo cristãos não praticantes. Apesar de não ser assumido, eu sempre soube o que era e me aceitei dentro do meu íntimo. Só não me assumi porque não quero perder certos privilégios na forma como minha família me trata. Eu sei que o hétero médio vê gays como menos do que um inseto, uma coisa inofensiva e irritante que não dá pra levar a sério. Podem fingir respeito e simpatia, mas no fim não nos querem por perto e não nos veem como iguais. Não estou criticando isso, só sendo realista. Recentemente eu comecei a entender melhor por que héteros nos veem assim.

A primeira experiência direta que eu tive com outro gay foi no primeiro ano do Ensino Médio. Ele passou a mão na minha rola do nada, sem mais nem menos, num momento completamente aleatório. Estávamos no meio de uma aula, cercados de colegas, quando a mão dele resolveu se aventurar por baixo da minha carteira. Não tínhamos intimidade. Ele mal havia falado comigo até então e a única interação que tivemos foi quando ele me chamou de ridículo por ter tretado com o amiguinho hétero dele. Esse precedente tornou a interpretação do assédio que sofri um pouco mais cruel. Quer dizer que ele não me respeitava enquanto pessoa, só via valor em mim enquanto pedaço de carne mesmo. (Hoje o energúmeno que me assediou faz posts reclamando de “militância seletiva” no Twitter. Quem poderia imaginar, né?). Essa experiência foi especialmente vergonhosa pra mim porque algumas pessoas que estavam à nossa volta notaram que ele me bolinou e tiraram sarro da situação, o que fez eu parar de frequentar a escola e repetir de ano. Mas quem sou eu pra reclamar? O mundo onde vivemos é assim, e mulheres passam por isso com uma frequência até maior. Sem contar que eu mesmo assediei um cara quando os meus hormônios afloraram depois, mas não a ponto de passar a mão nele.

Minha adolescência se tornou cada vez mais problemática, até porque eu também tinha problemas dentro de casa. Eu criei o hábito de me mutilar por um tempo, o que me traz consequências até hoje. No tempo que passei sem frequentar a escola, participei da categoria LGBT no Yahoo! Respostas. Esperava encontrar algum acolhimento ou trocar experiências, mas aquele site era um verdadeiro esgoto, completamente dominado por trolls homofóbicos. Havia usuários gays ali, sim, mas estes eram tão desprezíveis quanto os homofóbicos. Certa vez fiz um desabafo sobre a minha situação de assédio e apareceu a resposta de um troll no anonimato, ameaçando me estuprar com uma garrafa de vidro. Um dos gays que frequentava a categoria comentou na resposta do troll, rindo e debochando da situação. Ele fez isso por causa de divergências políticas. Apesar de gay, ele era bolsonarista, e eu costumava publicar respostas criticando o Bolsonaro. Outro usuário gay, que se fazia de bonzinho, apareceu nos comentários me defendendo e criticando a atitude dele. Mas posteriormente, esse mesmo usuário “gente boa” seguiu um fake que fizeram usando a minha foto em montagens pornográficas.

Até então, eu não havia usado nenhum desses eventos que aconteceu comigo como forma de generalizar a comunidade LGBT. Mas isso foi apenas o começo das dezenas de experiências negativas que eu tive com homens homossexuais. O tempo foi passando e o movimento progressista foi perdendo força na internet. Narrativas preconceituosas começaram a se espalhar em certas bolhas de redes sociais como o Twitter, usando estatísticas falsas para atribuir condutas criminosas a membros da comunidade LGBT. Eu vi a necessidade de refutar essas narrativas, antes que as tomassem como verdade absoluta. Pesquisei sobre as estatísticas e fiz alguns posts no subreddit brasileiro dedicado à comunidade LGBT. Fui extremamente mal recebido. Me disseram pra “tocar uma grama” e que “o problema acaba quando eu fechar o Twitter”. Mas o problema não acaba de fato. Porque homofobia não se restringe ao Twitter, ela também existe na vida real. Eu acho irresponsável deixar que os homofóbicos tenham fundamento teórico pra justificar essa discriminação, sem nem ao menos tentar refutar as falácias deles. No fim, os moderadores do subreddit colorido ainda excluíram o meu post, silenciando de vez os argumentos que tentei trazer sobre esse assunto. Depois disso, eu concluí que estava perdendo tempo na internet e era hora de viver a minha homossexualidade na prática.

Não cheguei a frequentar presencialmente eventos LGBT. Tanto porque não sou assumido, como porque nunca fui uma pessoa muito sociável. Tentei pagar pra comer um garoto de programa, mas acabei levando um golpe dele. Cogitei usar o Tinder, mas os perfis eram tão bem feitos e eu mal tinha fotos pra colocar no meu. Daí me restou aquele reduto de degeneração chamado Grindr. Eu observei os padrões dos perfis. Alguns tinham fotos de rosto, outros de corpo, muitos não tinham foto nenhuma. Eu não podia usar foto de rosto por não ser assumido. No início eu tentei usar uma foto meio antiga minha com filtro de IA no perfil. Muitos caras me mandavam mensagem, mas sempre me bloqueavam quando eu mandava fotos mais recentes. Fiquei deprimido com tantos blocks e resolvi colocar uma foto recente no perfil pros caras já saberem o que esperar antes de me mandar mensagem. Não podia ser de rosto, e o Grindr não aceita nudes como foto de perfil. Então eu resolvi fazer como boa parte dos usuários, e coloquei uma foto do meu corpo sem camisa. Era a única coisa que eu tinha pra mostrar, afinal. O problema é que aquelas marcas de automutilação da minha adolescência permaneceram no meu corpo até hoje. O resultado é que parei de receber mensagens. Os únicos que apareciam eram curiosos querendo perguntar sobre as minhas marcas, demonstrando pena de mim ou me julgando, mesmo eu não me mutilando há anos. Alguns até tentaram fetichizar as minhas cicatrizes, mas não é o tipo de coisa que me dá tesão. Ou eu deveria me excitar com as marcas do meu passado doloroso? Sempre que alguém ignora as malditas cicatrizes e começamos a ter uma conversa promissora, a pessoa some no dia seguinte, e percebo que só estava conversando comigo por pena. Consegui ter poucas experiências sexuais, normalmente com caras bem mais feios que eu, que não me atraíam de fato, e por isso eu brochava durante o sexo. As únicas exceções foram um cara que pediu pra me gravar durante o ato (eu aceitei por estar carente e desesperado) e me deu ghosting logo após o encontro, e outro que pediu dinheiro pra transar comigo (menos que um GP, mas continuou pedindo mais dinheiro após o encontro).

Após pensar sobre a minha vida, pude conectar esses fatos e observei um padrão. Algumas pessoas conseguem extrair prazer de suas sexualidades, mas eu só extraí dor. E todas, absolutamente todas as dezenas de gays que eu conheci na minha vida me proporcionaram experiências negativas. Não teve um gay que eu conheci, tanto na internet ou fora dela, que não tenha feito eu me arrepender de conhecê-lo pouco depois. Uma coisa é você conhecer um indivíduo dessa minoria e ele não prestar. Isso não justifica uma generalização. Mas e se 100% deles foi escroto contigo ou te fez algum mal?  Aqueles que deveriam me proporcionar amor e prazer só me trouxeram dor e ódio. Um dia eu vou devolver.

Pretendo construir o resto da minha vida sobre este ressentimento. Sabe o que dizem sobre canalizar o ódio e usá-lo como motivação? Quero estudar pensando nisso, ascender profissionalmente pensando nisso, juntar dinheiro pensando nisso, entrar na academia pra ficar com um corpo padrão, fazer cirurgias pra remover as malditas cicatrizes… E quando eu estiver pronto, vou proporcionar experiências sexuais tão brochantes, degradantes e humilhantes como as que eu tive. É o que os meus “iguais” merecem.

Podem me apedrejar, censurar, ignorar… Já estou acostumado a ser tratado assim aqui. E vai me dar mais motivação ainda.

(postado originalmente no Reddit em agosto de 2026)

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